Esta página é para quem recebeu do projetista o pedido de "CPTu e palheta" e quer saber o que cada ensaio entrega, ou para quem tem um SPT com N zero em vários metros e precisa decidir o próximo passo. O dimensionamento do aterro e da fundação é do projetista; aqui está o que o campo precisa medir para ele.
Por que o SPT não basta em argila mole
O SPT pela ABNT NBR 6484:2020 conta golpes para cravar 30 cm do amostrador. Em argila muito mole, o amostrador afunda com o peso das hastes e do martelo, e o boletim registra N de 0 a 2 em metros seguidos. Esse número confirma que a camada é mole, mas não separa uma argila de Su baixa de outra com o dobro da resistência, não mostra lentes finas de areia que drenam a camada e não informa nada sobre o tempo de adensamento.
A ABNT NBR 6122:2019 (com a Emenda 1:2022) trata esse caso como investigação complementar: o SPT é o mínimo para qualquer edificação e, quando ele não responde ao projeto, entram ensaios que medem o que falta. Em argila mole, os dois ensaios de campo de uso corrente são o CPTu e a palheta. O que a norma de fundações pede em cada etapa está no hub NBR 6122: investigação geotécnica para fundações.
O que o CPTu mede
O CPTu (piezocone) crava por empuxo hidráulico um cone de 60°, com área de base padrão de 10 cm², a velocidade constante de 20 mm/s, sem golpes. A ponteira registra três grandezas de forma contínua, a intervalos de poucos centímetros:
- qc — resistência de ponta: força na ponta dividida pela área do cone. Em argila, corrige-se para qt com a poropressão medida, porque a água atua na junta atrás do cone.
- fs — atrito lateral: medido na luva acima do cone. A razão de atrito (fs/qt) ajuda a separar argila, silte e areia.
- u2 — poropressão: medida no filtro logo atrás da base do cone. Em argila mole, a cravação gera excesso de poropressão alto; em lente de areia, u2 cai para perto da hidrostática. É esse contraste que mostra camadas drenantes de poucos centímetros que o SPT não vê.
Com as três leituras, o perfil é classificado por ábacos de comportamento do solo (os de Robertson são os mais usados) e a resistência não drenada é estimada por Su = (qt − σv0)/Nkt. O fator Nkt não é universal: deve ser calibrado para o depósito com ensaio de palheta ou ensaio triaxial na mesma área. O CPTu não recolhe amostra; a descrição táctil-visual continua vindo do SPT ou da amostragem.
Norma do CPT e do CPTu. A ABNT NBR 12069:1991 (Solo — Ensaio de penetração de cone in situ) foi cancelada em 2015 sem norma substituta. Em 2023 a ABNT publicou a NBR ISO 22476-12:2023, que trata do cone mecânico (CPTM) e não cobre o cone elétrico nem a medida de poropressão. Para o CPT elétrico e o CPTu, a referência praticada é a ISO 22476-1:2022 (Electrical cone and piezocone penetration test).
Ensaio de dissipação: ch e cv
Em profundidades escolhidas, a cravação é interrompida e o equipamento registra a queda do excesso de poropressão ao longo do tempo, até uma fração definida da dissipação (em geral até 50 %, o t50) ou até a poropressão hidrostática. Da curva saem:
- ch — coeficiente de adensamento horizontal, por métodos de interpretação como o de Houlsby e Teh (1988), que dependem também do índice de rigidez da argila;
- cv — coeficiente de adensamento vertical, estimado a partir de ch com a relação entre as permeabilidades horizontal e vertical adotada pelo projetista;
- u0 — poropressão de equilíbrio, quando a dissipação é levada até o fim, o que confere o nível d'água e eventual artesianismo.
O ch é o dado que governa o espaçamento de drenos verticais. O cv de campo costuma ser comparado com o do ensaio de adensamento em laboratório, que mede o material em uma única profundidade.
O que o ensaio de palheta mede
O ensaio de palheta (vane test) segue a ABNT NBR 10905:1989 — Solo — Ensaios de palheta in situ, que consta como vigente, com reconfirmação pela ABNT em 2023. Uma palheta de quatro aletas é cravada até a profundidade de ensaio e girada a velocidade baixa e constante; o torque máximo dá a resistência ao cisalhamento não drenada.
- Su indeformada: do torque máximo na primeira rotação, com a argila na estrutura natural.
- Su amolgada (Sur): medida depois de girar a palheta várias vezes para destruir a estrutura do solo na superfície de ruptura.
- Sensibilidade (St = Su/Sur): quanto a argila perde de resistência quando é remexida.
A palheta mede Su diretamente, sem fator empírico de cone, mas em pontos e não de forma contínua. Para uso em projeto de estabilidade, a literatura aplica à Su da palheta uma correção em função do índice de plasticidade (Bjerrum, 1972), o que pede ensaio de limites de Atterberg em amostra da mesma camada. Lente de areia, conchas, raízes ou turfa fibrosa na profundidade do ensaio invalidam a leitura; por isso a posição dos ensaios de palheta é escolhida depois do CPTu ou do SPT.
SPT, CPTu e palheta comparados
| Item | SPT | CPTu | Palheta (vane test) |
|---|---|---|---|
| Norma de referência | ABNT NBR 6484:2020 | ISO 22476-1:2022 (NBR 12069:1991 cancelada em 2015) | ABNT NBR 10905:1989 |
| O que mede | NSPT: golpes para 30 cm de penetração | qc, fs e u2; dissipação de u ao longo do tempo | Su indeformada e amolgada; sensibilidade |
| Registro | Um valor por metro | Contínuo, a cada poucos centímetros | Pontual, nas profundidades escolhidas |
| Amostra | Sim, deformada | Não | Não |
| Em argila mole | N de 0 a 2: confirma a camada, não a diferencia | Estratigrafia fina, lentes drenantes, Su por correlação, ch | Su medida direto; calibra o Nkt do CPTu |
| Limite | Pouca resolução em solo mole | Não atravessa camada muito compacta nem pedregulho; sem amostra | Só argila; areia, conchas e fibras invalidam o ponto |
| Papel na NBR 6122:2019 | Investigação mínima obrigatória | Investigação complementar | Investigação complementar |
Quando programar cada ensaio
- SPT primeiro, sempre. É o mínimo da NBR 6122:2019, dá amostra para classificar o solo e mostra até onde vai a argila mole. Como ler o boletim está em ensaio SPT e índice NSPT; o que a sondagem entrega e a diferença entre os métodos, em sondagem de solo.
- CPTu quando há argila mole com espessura relevante. Aterro, pavimento, galpão com piso sobre o terreno natural, estaca que atravessa a camada. O perfil contínuo define as camadas para o cálculo e o ponto certo da palheta e da amostragem.
- Palheta junto com o CPTu. Quando a análise depende da Su (estabilidade de aterro, escavação), a palheta mede o valor que o CPTu só estima, e a sensibilidade avisa sobre perda de resistência na execução.
- Amostra indeformada e laboratório quando o recalque decide. O CPTu e a palheta não dão compressibilidade. Para isso, amostra indeformada com amostrador de parede fina, pela ABNT NBR 9820:1997, e ensaio de adensamento pela ABNT NBR 16853:2020.
O que cada parâmetro alimenta no projeto
| Parâmetro | Origem | Uso no projeto |
|---|---|---|
| Perfil de Su com a profundidade | Palheta; CPTu com Nkt calibrado | Estabilidade de aterro sobre solo mole: altura de aterro, alteamento em etapas, bermas de equilíbrio, reforço com geossintético |
| Sensibilidade (St) | Palheta | Perda de resistência na cravação de estacas, em escavação e sob tráfego de equipamento |
| Estratigrafia e lentes de areia | CPTu (u2) | Distância de drenagem no cálculo do adensamento; divisão das camadas para recalque |
| ch e cv | Dissipação no CPTu; ensaio de adensamento | Prazo de adensamento, espaçamento de drenos verticais, tempo de sobrecarga temporária |
| Índices de compressão e tensão de pré-adensamento | Amostra indeformada (NBR 9820:1997) e ensaio de adensamento (NBR 16853:2020) | Magnitude do recalque primário; o CPTu dá só uma estimativa do pré-adensamento por correlação |
| qc e fs | CPTu | Capacidade de carga de estacas por métodos baseados no cone (o Aoki-Velloso foi formulado sobre o CPT); atrito negativo na camada mole que recalca sob o aterro |
O recalque diferencial em solo mole é a causa mais comum de piso trincado e de estrutura que "senta" de um lado. O site de laudos da NEV trata o que o projeto precisa demonstrar nesse caso na página solo mole e recalque diferencial.
Como a NEV Geotecnia executa a campanha
A NEV Geotecnia executa o CPTu e o ensaio de palheta, além do SPT, da sondagem mista e da sondagem a trado. Em argila mole, a sequência usual é SPT para classificar e delimitar a camada, CPTu para o perfil contínuo e ensaios de palheta nas profundidades que o perfil indicar. O programa (número de verticais, profundidades de palheta, pontos de dissipação) é definido com o projetista. O relatório traz os perfis, os resultados por profundidade e a ART do responsável técnico (Lei nº 6.496/1977).
Para orçar, mande pelo WhatsApp (47) 99701-9119 a localização da área, o tipo de obra (aterro, galpão, estacas) e, se já houver, o boletim do SPT com a argila mole.
Perguntas frequentes
O que é o ensaio CPTu?
É o ensaio de penetração de cone com medida de poropressão (piezocone). Um cone de 60° é cravado a velocidade constante e registra, de forma contínua, a resistência de ponta (qc), o atrito lateral (fs) e a poropressão (u2). O CPT sem a letra u é o mesmo ensaio sem a medida de poropressão.
Qual a norma do ensaio CPTu?
A ABNT NBR 12069:1991 (ensaio de penetração de cone in situ) foi cancelada em 2015 sem norma substituta. A ABNT publicou em 2023 a NBR ISO 22476-12, que trata só do cone mecânico (CPTM). Para o cone elétrico e o piezocone, a referência praticada no Brasil é a ISO 22476-1:2022.
O que é o vane test?
É o nome em inglês do ensaio de palheta. Uma palheta de quatro aletas é cravada na argila e girada; o torque máximo dá a resistência ao cisalhamento não drenada (Su). Depois de amolgar o solo com rotações, mede-se a Su amolgada. O método de ensaio é o da ABNT NBR 10905:1989.
O que é sensibilidade da argila no ensaio de palheta?
É a razão entre a resistência não drenada indeformada e a amolgada, medidas na mesma profundidade. Argila sensível perde boa parte da resistência quando é remexida, o que pesa na execução de estacas cravadas, na escavação e no tráfego de equipamento sobre o terreno.
O CPTu substitui o SPT?
Não. A ABNT NBR 6122:2019 exige SPT pela NBR 6484:2020 como investigação mínima de qualquer edificação. O CPTu e a palheta entram como investigação complementar, em geral nas camadas de argila mole que o SPT já identificou. O CPTu não recolhe amostra; a classificação do solo continua vindo do SPT.
Para que serve o ensaio de dissipação no CPTu?
Com a cravação parada, registra-se a queda da poropressão gerada pelo cone ao longo do tempo. A curva dá o coeficiente de adensamento horizontal (ch), que entra no cálculo do prazo de adensamento e no espaçamento de drenos verticais.
Quando usar ensaio de palheta em vez de CPTu?
Os dois se completam. O CPTu dá o perfil contínuo e mostra onde estão as camadas e lentes de areia; a palheta mede a Su em profundidades escolhidas e serve para calibrar o fator de cone (Nkt) que converte o CPTu em Su. Em obra de aterro sobre solo mole, o usual é programar os dois.
NEV Geotecnia — NEV Serviços de Engenharia Ltda. — CNPJ 60.936.736/0001-06 — Rua Carlos Rueckl, 681 — Sala 2 — Serra Alta — São Bento do Sul/SC — CEP 89291-105.
Página atualizada em 26/10/2026.
Fontes: ISO 22476-1:2022 — Geotechnical investigation and testing — Field testing — Part 1: Electrical cone and piezocone penetration test; ABNT NBR 12069:1991 — Solo — Ensaio de penetração de cone in situ (CPT) (cancelada em 2015); ABNT NBR ISO 22476-12:2023 — Ensaio de penetração de cone mecânico (CPTM); ABNT NBR 10905:1989 — Solo — Ensaios de palheta in situ; ABNT NBR 6122:2019 — Projeto e execução de fundações (Emenda 1:2022); ABNT NBR 6484:2020 — Solo — Sondagem de simples reconhecimento com SPT — Método de ensaio; ABNT NBR 9820:1997 — Coleta de amostras indeformadas de solos de baixa consistência em furos de sondagem; ABNT NBR 16853:2020 — Solo — Ensaio de adensamento unidimensional; Schnaid, F. e Odebrecht, E. Ensaios de Campo e suas Aplicações à Engenharia de Fundações, 2ª ed., Oficina de Textos, 2012; Lei nº 6.496/1977.
