Todo boletim de sondagem SPT traz uma linha que muita gente pula: o nível d'água. É ela que diz se a escavação da sapata vai encher, se o tubulão a céu aberto é viável e se o subsolo vai sofrer subpressão. Veja como a ABNT NBR 6484:2020 manda medir esse dado e como ler o resultado.
Como a NBR 6484:2020 manda medir
A sondagem SPT avança de duas formas. Na parte de cima, o furo é aberto com trado helicoidal, a seco. Quando o trado deixa de avançar, ou quando o solo fica úmido demais para ser retirado, a perfuração passa a ser por circulação de água, com o trépano de lavagem. Depois que a equipe injeta água no furo, já não dá para separar a água do terreno da água da sondagem.
Por isso a NBR 6484:2020 trata o nível d'água em dois momentos:
- Primeira ocorrência. Durante a perfuração a trado, ao surgir água no furo, a operação é interrompida, a profundidade é anotada e a equipe observa a subida da água por um período antes de continuar. Se a água subir, o lençol pode estar sob pressão.
- Leitura após a estabilização. Terminado o furo e retirado o revestimento, o nível é medido de novo depois de um intervalo de espera, para que a água volte ao equilíbrio com o terreno. É essa leitura que entra no perfil como nível d'água do furo.
O relatório deve trazer as duas informações com data, e também quando a água não foi encontrada. Furo sem a linha de nível d'água é relatório incompleto.
Norma e prática no tempo de espera
A NBR 6484:2020 fixa um intervalo mínimo entre o fim do furo e a leitura final. Fazer a leitura no dia seguinte, cerca de 24 h depois, é prática consagrada no mercado, não exigência textual da norma.
Em solo arenoso, a água volta ao nível em pouco tempo. Em argila, a recuperação é lenta e uma leitura feita cedo demais tende a mostrar o nível mais baixo do que ele é.
O que o nível d'água pode significar
O registro do boletim é um fato do ensaio. O que ele representa é interpretação do engenheiro, e as situações mais comuns são estas:
| Situação no boletim | Leitura provável | O que confirmar |
|---|---|---|
| Nível parecido em todos os furos, ajustado à cota do terreno | Lençol freático contínuo | Variação sazonal, se a obra escava perto dele |
| Água em um furo, ausente nos vizinhos, sobre camada argilosa | Lençol suspenso (empoleirado) | Se aparece só na estação chuvosa |
| Água sobe acima do ponto onde surgiu | Aquífero confinado, com pressão | Subpressão no fundo da escavação |
| Nível não encontrado | Sem água livre até a profundidade ensaiada, naquela data | Época do ano em que a sondagem foi feita |
A NBR 6502:2022 é a referência de terminologia para esses termos. A coluna do meio é hipótese: o SPT mede onde a água estava no furo, não de onde ela vem.
Litoral e várzeas do Sul
Na planície costeira de Joinville, Itajaí e Paranaguá, o nível d'água costuma aparecer raso, em areias e argilas moles de origem marinha e fluvial. Em São Bento do Sul e no planalto, o comum é encontrar água mais funda no solo residual, ou lençol suspenso sobre camadas argilosas nas baixadas. São tendências regionais, não regra: só a sondagem no terreno diz onde a água está.
O que muda no projeto
A ABNT NBR 6122:2022 exige que o projeto de fundação se apoie em investigação geotécnica do terreno, e o nível d'água faz parte dela. Na prática, ele pesa em quatro decisões:
- Escavação de sapatas e blocos. Abaixo do nível d'água, a cava enche e o fundo pode amolecer. Pode ser preciso esgotamento ou rebaixamento, e a segurança da escavação segue a NBR 9061.
- Tipo de estaca. Tubulão a céu aberto e estaca escavada sem fluido dependem de furo estável e seco. Abaixo do lençol, o projetista tende a preferir hélice contínua, estaca escavada com fluido estabilizante ou estaca cravada.
- Subsolo, poço de elevador e reservatório enterrado. O nível d'água define o empuxo e a subpressão, e entra no cálculo das paredes, da laje de fundo e da verificação contra flutuação.
- Rebaixamento e vizinhos. Baixar o lençol durante a obra pode provocar recalque em construções vizinhas apoiadas sobre argila mole. Esse risco começa a ser avaliado pelo nível d'água da sondagem.
Um retrato, não um filme
A leitura da sondagem é um ponto no tempo. O lençol sobe nos meses chuvosos e desce na estiagem. Uma campanha feita no fim de uma estiagem longa pode mostrar o nível abaixo do que a obra vai encontrar no inverno. Quanto de margem considerar é decisão do projetista, com o histórico da região e o tipo de obra.
Quando a obra depende do nível d'água ao longo do tempo, como um subsolo em área baixa, o caminho é instalar piezômetros ou medidores de nível e acompanhar as leituras. Isso não faz parte do SPT e precisa estar previsto à parte.
Como a NEV registra o nível d'água
Anotamos a primeira ocorrência ainda na perfuração a trado e fazemos a leitura final depois da estabilização, conforme a NBR 6484:2020. O perfil de cada furo traz as duas profundidades, com data, e o registro explícito quando a água não foi encontrada. Água que sobe acima do ponto em que apareceu vai escrita no relatório. Os critérios de paralisação estão em até que profundidade vai a sondagem.
Fontes
- ABNT NBR 6484:2020 — Solo — Sondagem de simples reconhecimento com SPT — Método de ensaio.
- ABNT NBR 6122:2022 — Projeto e execução de fundações.
- ABNT NBR 8036:1983 — Programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios.
- ABNT NBR 6502:2022 — Solos e rochas — Terminologia.
- ABNT NBR 9061:1985 — Segurança de escavação a céu aberto.
- ABGE — Manual de Sondagens, Boletim nº 3 (2013).
Perguntas frequentes
Por que o nível d'água não é medido só no fim do furo?
Porque, a partir do nível d'água, a perfuração é feita por lavagem, com água injetada no furo. A água da própria sondagem mascara o lençol. Por isso a NBR 6484:2020 pede o registro na primeira ocorrência, ainda na perfuração a trado, e nova leitura depois da estabilização.
O boletim diz 'nível d'água não encontrado'. Posso considerar o terreno seco?
Não para sempre. Significa que não havia água livre no furo até a profundidade ensaiada, na data da sondagem. O nível varia com a estação e com as chuvas, e o projetista deve considerar essa variação.
A sondagem SPT substitui o monitoramento do lençol freático?
Não. A sondagem dá uma leitura pontual por furo. Quando a obra depende do nível d'água ao longo do tempo, como subsolo, rebaixamento ou reservatório enterrado, o projetista pode pedir piezômetros ou medidores de nível, que são outro serviço.
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Publicado em 20 de outubro de 2026.
