(47) 98867-0043 Blog — Sondagem SPT
Tripé de sondagem SPT da NEV Geotecnia montado em terreno rural, com o furo identificado em campo
Resposta direta: Impenetrável é resultado do ensaio, não tipo de material: amostrador ou trépano pararam de avançar nos limites da NBR 6484:2020. Pode ser rocha, matacão, pedregulho ou solo muito resistente. Se a fundação se apoiar ali, confirme com sondagem rotativa.

O boletim de um dos furos para com a palavra impenetrável. O vizinho diz que ali "é tudo rocha" e o projetista pergunta se pode apoiar a fundação nessa cota. Antes de responder, vale entender o que a palavra significa na ABNT NBR 6484:2020: ela descreve o comportamento do ensaio, não o material embaixo.

O que a norma chama de impenetrável

A NBR 6484:2020 trata de dois impenetráveis diferentes, e o boletim precisa registrar qual deles encerrou o furo.

Impenetrável à percussão

É quando o amostrador-padrão, cravado pelo martelo de 65 kg caindo de 75 cm, deixa de avançar dentro dos limites da norma. A NBR 6484:2020 manda interromper a cravação quando:

  • o número de golpes ultrapassa 30 em qualquer um dos três segmentos de 15 cm;
  • a cravação acumula 50 golpes no total;
  • o amostrador não avança durante cinco golpes sucessivos do martelo.

Nesses casos o boletim não traz um N convencional: registra golpes e penetração correspondente, que a prática de campo escreve como fração (50/8 significa 50 golpes para 8 cm). Esse par de números deve estar no relatório.

Impenetrável à lavagem

O impenetrável à percussão não encerra o furo por si só. A NBR 6484:2020 prevê, a partir dele, o ensaio de avanço por lavagem: o trépano corta o material com circulação de água e o avanço é cronometrado em intervalos de 10 min ao longo de 30 min. Avanço menor que 5 cm em cada intervalo caracteriza o impenetrável à lavagem e permite encerrar o furo. Avanço maior, a sondagem continua e o SPT volta no metro seguinte.

A distinção importa porque pedregulho compacto ou um bloco pequeno dão impenetrável à percussão e são atravessados na lavagem, com solo comum logo abaixo.

O que pode estar embaixo

O SPT não recupera testemunho de rocha. Ele devolve o comportamento do amostrador, o avanço do trépano e os fragmentos que sobem com a água de lavagem. Com esses três dados, as situações mais comuns no Sul do Brasil são:

Material O que costuma aparecer no boletim Risco para a fundação
Rocha contínua (gnaisse, granito, basalto, arenito) N crescente nos metros anteriores, solo residual com estrutura da rocha, impenetrável à lavagem Baixo, se confirmada a continuidade
Matacão em solo residual Impenetrável súbito em cota diferente dos furos vizinhos; em outro furo, solo normal na mesma cota Alto: apoio em bloco isolado, com solo mais fraco embaixo
Pedregulho ou cascalho compacto (aluvião) Impenetrável à percussão, mas avanço na lavagem; fragmentos arredondados Médio: dificulta cravação de estacas, mas não é rocha
Entulho ou concreto em aterro Impenetrável raso, fragmentos de material de construção na lavagem Alto: aterro não é apoio de fundação

A coluna da esquerda é interpretação, não resultado do ensaio: a norma dá o registro; o que está embaixo é inferência do engenheiro.

O caso dos matacões do Norte catarinense

Nos solos residuais de gnaisse e granito de Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul, é comum o perfil guardar blocos de rocha pouco alterada em cotas variadas. Dois furos próximos podem dar impenetrável a 3 m e a 11 m. Esse padrão já é indício de matacão, e o programa deve prever confirmação antes de qualquer fundação apoiada nesse topo.

Como ler o conjunto de furos

Prática consagrada, não norma, para avaliar o impenetrável pelo conjunto de furos:

  1. Cota do impenetrável referida a uma RN, não só a profundidade. Topo rochoso contínuo varia de forma gradual entre furos; matacão varia aos saltos.
  2. Evolução do N nos metros anteriores. N crescente em solo residual sugere rocha alterada passando a rocha; salto de N baixo para impenetrável sugere bloco.
  3. Material de lavagem. Fragmentos angulosos da mesma rocha em vários furos indicam maciço; concreto ou tijolo indicam aterro.

Se o relatório não permite essa leitura, o dado que falta é o que a sondagem rotativa fornece.

Quando a rotativa é obrigatória

A ABNT NBR 6122:2022 exige investigação geotécnica compatível com o tipo de fundação adotado e projeto apoiado nos dados dessa investigação. Para fundações apoiadas em rocha, ou que precisam atravessá-la, o SPT não produz o que o projeto precisa: continuidade do maciço, grau de alteração, fraturamento, recuperação e RQD (índice de qualidade da rocha, parâmetro de prática consagrada, não de norma brasileira).

A confirmação é por sondagem rotativa, isolada ou como sondagem mista: o mesmo furo começa a percussão e, no impenetrável, passa a rotativa com coroa diamantada e recupera testemunho. A extensão a perfurar na rocha é fixada pelo projetista no programa, suficiente para afastar a hipótese de matacão.

Situações em que recomendamos a confirmação:

  • Sapata, bloco ou tubulão apoiado no impenetrável. Se for matacão isolado, a carga vai para um bloco com solo mais fraco embaixo.
  • Estaca pré-moldada cravada. Matacão dá nega falsa: a estaca para no bloco e o projetista assume uma capacidade que não existe abaixo.
  • Hélice contínua ou escavada. O equipamento não atravessa o bloco; a estaca fica mais curta que o projeto, e o problema só aparece na execução.

Quando a solução não depende dessa cota, como estaca de atrito inteira acima do impenetrável, o SPT pode bastar. A decisão é do projetista, e depende de o relatório dizer por que cada furo parou.

O que a NEV faz quando o furo dá impenetrável

Registramos o impenetrável à percussão com golpes e penetração, executamos o ensaio de avanço por lavagem conforme a NBR 6484:2020 e só encerramos o furo no impenetrável à lavagem ou na profundidade do programa. Cada furo traz no relatório o motivo da paralisação, assunto do artigo sobre até que profundidade vai a sondagem.

Quando o impenetrável aparece na cota em que a fundação seria apoiada, avisamos antes de desmobilizar, porque a rotativa é outro serviço e outra proposta. Em Curitiba e região e nos morros do litoral catarinense, essa conversa costuma acontecer ainda em campo.

Fontes

  • ABNT NBR 6484:2020 — Sondagens de simples reconhecimento com SPT — Método de ensaio.
  • ABNT NBR 8036:1983 — Programação de sondagens para fundações de edifícios.
  • ABNT NBR 6122:2022 — Projeto e execução de fundações.
  • ABNT NBR 6502:2022 — Solos e rochas — Terminologia.
  • ABGE — Manual de Sondagens, Boletim nº 3 (2013).

Perguntas frequentes

Impenetrável na sondagem SPT quer dizer que achou rocha?

Não. Quer dizer que o amostrador ou o trépano de lavagem pararam de avançar dentro dos limites da NBR 6484:2020. Rocha, matacão, pedregulho compacto, solo residual muito resistente e entulho em aterro produzem o mesmo registro.

O furo acaba no primeiro impenetrável?

Não necessariamente. Pela NBR 6484:2020, depois do impenetrável à percussão a equipe faz o ensaio de avanço por lavagem. Se o trépano avança, a sondagem continua. O furo só encerra no impenetrável à lavagem ou na profundidade do programa.

Quando é obrigatório fazer sondagem rotativa?

Quando a fundação vai se apoiar ou atravessar o material que deu impenetrável e o projetista precisa saber se é rocha contínua e em que estado. A NBR 6122:2022 exige investigação compatível com a fundação adotada, e o SPT não produz esses dados.

Autor e responsável técnico: Eng. Civil Alex Rafael Niepiçuy — CREA/SC 199031-9.
NEV Geotecnia — NEV Serviços de Engenharia Ltda. — CNPJ 60.936.736/0001-06 — Rua Carlos Rueckl, 681 — Sala 2 — Serra Alta — São Bento do Sul/SC — CEP 89291-105.
Publicado em 6 de outubro de 2026.